segunda-feira, 7 de abril de 2014

CONSEQUÊNCIAS ECONÓMICAS DA PAZ EM ANGOLA;


04/04/14
Jonísio C. Salomão[1]
kams_9@hotmail.com



Elegemos o titulo as consequências económicas da Paz, não para abordarmos as questões referenciadas por Jonh Maynard Keynes no seu livro intitulado “The economic consequences of peace (1919)[1]”, mais para no âmago da questão, nos referirmos a um País que viveu um longo período de conflito armado, e actualmente apresenta uma forte resiliência, e meticulosamente dá passos seguros para a estabilização da sua economia, criando as premissas necessárias para alavancar o seu desenvolvimento económico.

Angola prepara-se para comemorar  com euforia o 12º aniversário do “memorando de entendimento do Luena” assinado no ano de 2002, veio materializar os compromissos e obrigações obtidas no Protocolo de Lusaka e garantir a Paz efectiva para Angola.

O advento da Paz fez eclodir benefícios múltiplos para o País  que hodiernamente, são indubitavelmente incontornáveis, partindo das questões macroeconómicas para as microeconómicas.

Uma primeira questão como corolário da Paz que importa salientar foi a estabilidade macroeconómica, pois permitiu o pais alcançar níveis e indicadores de crescimento nunca antes registados. Angola abandona uma economia em recessão e passa para uma economia em franco crescimento, tal como o ciclo económico referenciado por Schumpeter (1939)[2].

Crescimento


            No ano de 2002, Angola apresentava um Produto Interno Bruto (PIB) de 14,5% e uma taxa de crescimento de 9% e no ano 2005, Angola apresentava um PIB em torno dos 20,6%, tendo no período de 2003 a 2008 a economia Angolana registado um crescimento médio de 17% ao ano, fazendo parte do leque de economias que apresentaram as mais altas taxas de crescimento, conhecendo este crescimento alguma retração de  2,4% e 3,4% no período de 2009 a 2011, devido a crise financeira económica que afectou a económica mundial.

De acordo as previsões do Banco Mundial (BM) no relatório “Global Economic Prospects”, perspectivas económicas globais, o qual aponta um crescimento da económica Angolana para o ano de 2014 em torno dos 7,5%, enquanto o Orçamento Geral Estado prevê uma taxa de crescimento cifrado em 8,8%, com grande parte desde crescimento sustentado pelo sector petrolífero, enquanto que o Fundo Monetário Internacionacional (FMI) prevê um crescimento entorno dos 5%, no entanto, haver vamos!.


Inflação


Uma outra variável macroeconómica de realce foi a taxa de inflação, angola no período de 2002, Angola apresentava uma taxa de inflação em torno dos 3 dígitos, 108% e no final de 2011, apresentava uma taxa de 11,4%, registando –se uma considerável redução em quase cerca de 947%.
Os altos índices de inflação tiveram um forte impacto na alta dos preços que o país apresentava, e como corolário, paulatinamente corroía a moeda angolana e reduzia o poder de compra da população. Na altura o Kwanza não desempenhava as reais funções de uma moeda, tais como:


1- Reserva de valor;
2- Meio de pagamento;
3- Unidade de conta;


1 - O Kwanza não era considerada reserva de valor, pois os agentes económicos preferiam outras moedas ou acabavam por entesourar as suas poupanças noutras moedas com maior robustez e sustentabilidade como o dólar ou euro;

2 – Pese embora, ser o Kwanza declarado como meio de pagamento, e a moeda nacional em circulação, a real moeda que era utilizada nas transações comerciais era o dólar, e era aceite por todos sem nenhuma contestação, inclusive em alguns estabelecimento unicamente aceitavam o dólar nas transações comerciais.

3 – Não era considerada unicamente como unidade de conta, pois, não havia unicidade na fixação ou indexação dos preços na moeda nacional, pois os preços eram estabelecidos não apenas em kwanzas mais também em outras moedas especificamente o dólar.

Actualmente, a taxa de inflação em Angola historicamente foi reduzida para um digito ou seja 7,69%, e almeja –se que venha durante o ano de 2014, cifrar –se em torno de 1 dígito (inflação moderada ou tratante), podendo variar dos 8 aos 9%,a despeito de levantam-se alguns questionamentos no seu cálculo, visto que um dos elementos determinantes para a inflação que é  IPC, apenas ser determinado somente em Luanda, sendo os restantes mercado e províncias excluídos no referido cálculo.


Desemprego


O desemprego em Angola também registou diminuições significativos, sendo a sua taxa no ano de 2002, cifrada em 68%, o relatório do CEIC[3],  estimou em 24,8% o desemprego no ano de 2011, embora existam outros estudos que contrariem a referida taxa e apresentam uma a longo prazo, situada em torno de 40%, contudo existe grandes dificuldades em realmente se apresentar informações mais profundas sobre a matéria devido a exiguidade de informação.

Outrossim, é incomparável o número de empregos gerados, embora muito ainda deve ser feito, as questões apontadas como: a falta de qualificação dos técnicos, e a dificuldade de geração de emprego, a elevada taxa de alfabetismo com grande incidência no meio rural, escassez de cursos universitários nas áreas de tecnologia e engenharia; Desestruturação sócio-produtiva das comunidades rurais devido à falta de infraestruturas sociais e produtivas, com destaque para ausência de água, luz e vias de acesso do campo para os grandes centros urbanos,  têm sido os principais influenciados nas actuais taxas de desemprego verificadas no país.


Taxa de Juro


As políticas relacionadas com a taxa de juro, continuam a merecer a sua especial atenção pelo órgão regulador e supervisor que é o Banco Nacional de Angola (BNA), a autoridade máxima e monetária no País.

Periodicamente através de diversos instrutivos, o BNA, dita as regras relacionadas com o “preço do dinheiro” na economia Angolana.
Na análise das taxas de juro praticadas no mercado Angolano, é necessário ter em conta que as mesmas reflectem, implicitamente, as taxas de crescimento do País, bem como um referencial de inflação[4]. Com a redução ou queda da inflação, a taxa de juro também conheceu retração, tornando o dinheiro mais barato na económica Angola, embora os juros das operações activas (empréstimos) continuam a ser altos, quando comparados com os juros das operações passivas (depósitos).
No final de 2002, Angola possuía uma taxa de juro básica em torno de 80% e para o ano de 2013 o banco Nacional de Angola decidiu o Banco Nacional de Angola decidiu reduzir em 50 pontos base para 9,25% a taxa básica de juro, Taxa BNA, e em 75 pontos base para 10,25% a taxa de juro de facilidade permanente de cedência de liquidez[5].
De acordo com uma nota da Banco Nacional de Angola (BNA), a medida visa aumentar os recursos financeiros disponíveis para o crédito à economia, assim como continuar a reduzir os custos de intermediação financeira.


Taxa de Câmbio


A taxa de câmbio em Angola sempre teve dois cenários devido a uma forte intervenção do sector informal, foram apresentados os cenários referentes ao câmbio Kwanzas/dólar, no entanto no período de 2002 a taxa de câmbio básica era de 57,1 no mercado formal e no informal apresentava uma indexação de 62,3, sendo a depreciação do kwanza no sector formal de 7,4% e no informal em 15,3%.
A partir de Agosto de 2004 verificou-se uma redução da desvalorização cambial da moeda, como resultado das medidas implementadas pelo Executivo Angolano e pela autoridade máxima monetária BNA, seguindo –se um período de estabilidade cambial.
Actualmente (2014), assistimos uma estabilização do kwanza, também devido a política de desdolarização da economia Angola, que acabou por valorizar a moeda nacional, mantendo quase inalterável a taxa cambial kwanza - dólar, sendo a taxa média fixada torno dos 98 kz.
Quanto as questões microeconómicas, importa realçar que com advento da Paz, o mercado tornou –se mais competitivo, permitindo desta forma o surgimento de mais empresas, visando oferecer produtos que satisfaçam as reais necessidades dos consumidores em função dos critérios como: preço, prazo, qualidade entre outros factores.
Tal competitividade permitiu incrementar a variável oferta no mercado, a despeito de grande parte dos produtos  sem mormente oriundos de importação.
Este cenário permite o consumidor efectuar escolhas racionais em face a diversidade do mercado.
Tal como referiu o relatório da pesquisa efectuada pelo Banco Espírito Santo  de Angola, “desde o final da guerra civil em 2002, a economia de Angola tem revelado uma tendência de recuperação do crescimento, bem como uma tendência de estabilização financeira, visível nas principais variáveis macroeconómicas. Para este facto têm contribuído (i) o forte crescimento da produção e das receitas associadas ao petróleo; (ii) um processo de reconstrução de infra-estruturas produtivas; (iii) o realojamento de cerca de 4 milhões de deslocados internos[6]”.
Uma outra questão que tem corroborado na formação da alta dos  preços,  são as questões relacionadas com a carga tributária e fiscal Angola, o produtor contabiliza quase cerca de 20 a 50% de impostos, agregando a estes, os custos fixos e variáveis.


Desafios da Economia Angolana.
  

Em face ao despontar da economia Angolana os desafios prendem –se mormente com a transformação do crescimento alcançado em desenvolvimento económico.
           
No entanto as questões relacionadas com as infraestruturas básicas que asseguram o normal e correcto funcionamento da economia e do sector privado ainda apresentam limitações:

Questões infraestruturais e sociais:

 - Ausência de energia Eléctrica, que encarece os bens e serviços produzidos no País;
 - Falta de Água;
 - Redução da taxa de pobreza (37%) e desemprego (37-40%);
 - Maior equidade na distribuição do rendimento e riqueza nacional;
 - Redução da taxa de analfabetismo e mortalidade infantil;

Economia Real:

 - Efectivar as questões relacionadas com a diversificação da Economia Angolana
 - Melhorar a produtividade do sector Empresarial público Angolano;
 - Rever as questões relacionadas com assimetrias regionais;
 - Melhorar as questões relacionadas com a transparecia e gestão dos fundos públicos;
 - Revitalização e forte aposta na agricultura mecanizada e tecnológica;
 - Reconstrução e implementação de um sector industrial forte capaz de transformar os inputs do campo em bens de consumo final;




[1] Em português: “As consequências económicas da Paz”, (1919) publicado  pela Macrnillan & Co. Ltd., London.
[2] Economista que definiu quatro fases para um ciclo económico (1939).

[3] Cf. Relatório Económico de Angola do Centro de Estudos e Investigação científica da universidade católica (2011).
[4] Cf. KPMG (2011), Relatório sobre análise do sector Bancário em Angola.
[5] Cf. O Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Nacional de Angola, informação disponível em: http://www.angonoticias.com/Artigos/item/40697/banco-nacional-de-angola-reduz-taxa-basica-de-juro-para-925-por-cento-.

[6] Cf. O relatório BESA research de Angola Economic Outlook, (2007).



[1] Mestre em Administração de Empresas; Consultor Empresarial e Técnico Oficial de Contas.

sexta-feira, 28 de março de 2014

CENSO POPULACIONAL DE ANGOLA: ANÁLISE DO BINÓMIO CUSTO-BENEFÍCIO;




27/03/14
Jonísio C. Salomão[1]
kams_9@hotmail.com

Etimologicamente  a palavra “censo” vem do latim “censos” que significa “estimativa”. Na Antiga Roma, o censo era realizado para permitir identificar os donos das terras e determinar os impostos a pagar. Na idade Média, era visto como um tipo de pensão que o senhor ou proprietário de uma determinada terra recebia dos seus servos pelo uso da mesma, este procedimento era baseado num contrato.

Hodiernamente, e de acordo as Nações Unidas, através da Divisão de Estatística, o censo consiste num “processo de total de coleta, processamento, avaliação, análise e divulgação de dados demográficos, económicos e sociais referentes a todas as pessoas dentro de um país ou de uma parte bem definida de um país num momento específico".
O censo populacional espelha um real retrato da população, aonde pode –se visualizar quem são, aonde estão e como vivem os habitantes de um país ou nação, corroborando desta forma para que se possa  acompanhar a evolução da população no tempo e no espaço.

O Programa Mundial de Recenseamentos da População e da Habitação foi aprovado pela Comissão de Estatística, aquando da sua 36ª Sessão, em 2005 e foi adoptado pelo Conselho Económico e Social das Nações Unidas, na resolução nº A/2005/13. Assegurar que cada Estado membro realiza, periodicamente os recenseamentos da  população e habitação[2]

A realização do censo em quase todos os países do mundo acontece de 10 em 10 anos.

Depois de quase cerca de 44 anos, Angola prepara –se para no período de 16 a 31 de Maio realizar o 1º censo populacional no período pós – independência, uma vez que o primeiro realizado na década de 1970,  e não foi abrangente[3], o que influiu num desajuste em grande parte da informação estatística que o país possui actualmente.


Mormente os estudos realizados em Angola foram feitos com base em estimativas e projecções de crescimento da densidade populacional estimada em 20 milhões de habitantes[4], o que per si só, não representa a actual densidade populacional do país, visto que Angola apresenta uma taxa de natalidade elevada e um agregado familiar em média de 4 a 5 filhos (IBEP, 2013), o respectivo número de filhos tende a crescer nas zonas rurais, pelo que, permite-nos inferir que os dados apresentam uma margem de erro.

O novo censo a se realizar em Angola foi aprovado através do Decreto Legistativo  Presidencial N.º1/13 de 6 de Fevereiro;

O mesmo possuirá como objectivos fulcrais[5]:

  •      Contar toda a população presente no território, ausente, e não residente
  •    Actualizar a informação sobre suas principais características demográficas e socio-económicas;
  •      Identificar sua distribuição no território nacional;
  •    Realizar o levantamento e a caracterização das habitações/casas na República de Angola;
  •    Proporcionar informação para a elaboração das projecções de população e para a construção dos marcos de amostragem para os inquéritos aos agregados familiares;



CUSTO DO CENSO POPULACIONAL


Para a realização de qualquer projecto a variável custo faz –se sempre presente, pois torna –se relevante em qualquer estrutura empreendimento ou investimento de tal forma a evitar–se possíveis constrangimentos, outrossim, é perentório contar –se sempre com margens mínimas desvios ou erros aceitáveis não superiores a 10% do valor global.

De acordo Camilo Ceita[6], para a realização do Censo em Angola serão necessários cerca de 150 a 160 milhões de dólares por ser  a primeira vez que o país alberga tal acto, devido a necessita de deslocação a pontos ou localidades recônditas, e para contratação de pessoal para esta empreitada, num número aproximado a 70 mil.

Outros custos estiveram também relacionados com as ajudas de custo que tiveram de ser pagas para os cartógrafos que deslocaram para zonas algumas delas inóspitas e dada a necessidade foram obrigados a pernoitar nestas localidades para que se concluísse o processo da cartografia do país.

BENEFÍCIOS DO CENSO POPULACIONAL


Almeja –se que, com a realização de tal desiderato o mesmo traga os seguintes benefícios:

Demográfico

  • ·      Saber  como é feita a distribuição da população no território Angolano;
  • ·      Distribuição dos povos etno linguísticos e proporcionando matéria para posteriores estudos;
  • ·     Determinar com exactidão como se encontra distribuída a pirâmide populacional em função da idade, raça, cor, etc.



Social


  • ·    Rever as políticas públicas  e reajustar o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) em função do dados actuais;
  • ·      Identificar as reais necessidades da população em função do meio envolvente;
  •     Rever e determinar a taxa de Pobreza em Angola e sua real incidência no meio Urbano e Rural;
  • ·    Melhorar as políticas relacionadas com as assimetrias regionais e locais e desta forma direcionar os investimentos públicos aonde realmente haja maior necessidade;
  • ·      Permitir melhor distribuição da riqueza, proporcionando maior equidade;
  • ·      Determinar as reais necessidade de saúde, educação, energia e água;
  • ·      Rever  e determinar a taxa de desemprego actual no país;


Económica

  • ·     Determinar as reais taxas de inflação em função do Índice preço do consumidor (IPC) Global e não o centrado apenas em Luanda;
  • ·      Identificar as potencialidades de cada Município ou região;
  • ·      Determinar com precisão o Produto Interno Bruto (PIB) per capita[7];
  • ·      Determinar a média do salário real e nominal;
  • ·      Geração de emprego sazonal;


Para empresas, vai igualmente auxiliar nos estudos de viabilidade ou plano de negócios para futuros investidores, determinando:

  • ·      O número de consumidores existentes numa determinada localidade;
  • ·      Os potenciais competidores ou concorrentes no mercado;
  • ·      Média de rendimento per capita numa determinada localidade.



De forma concludente, o que realmente se almeja é que, os recursos ora investidos, criem um efeito dominó a curto e médio prazo para a população e que, as questões relacionadas com: as assimetrias regionais ou locais, o desemprego, a pobreza, tenham uma real atenção e tratamento, e que o país “cresça mais para poder distribuir melhor” augurando desta forma que,  os indicadores como os coeficientes de ginni[8] (alto) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo, que muito têm pesado na Balança de Desenvolvimento de Angola possam conhecer melhorias significativas para os Angolanos.












[1] Mestre em Administração de Empresas; Consultor Empresarial e Técnico Oficial de Contas.
[3] Segundo declarações do Director do INE em Angola, Camilo Ceita em entrevista no Jornal privado o País. Disponível em: http://www.opais.net/pt/opais/?id=1647&det=32415
[4] Cf. Inquérito do Bem Estar da População (IBEP), 2013.
[5] Cf. Instituto Nacional de Estatística (INE), 2013.
[6] Director Geral do Instituto Nacional de Estatística de Angola.
[7] Por habitante.
[8] Comumente utilizada para calcular a desigualdade de distribuição da renda.