sexta-feira, 19 de junho de 2015

CHINA: O GIGANTE ASIÁTICO QUE CAVALGA POR ANGOLA.


15/06/15
Janísio C. Salomão




Com o culminar do conflito armado em Angola, grande parte do tecido económico, produtivo e industrial encontrava -se em estado avançado de degradação. Angola da inicio ao processo de angariação de recursos para o financiamento das principais infraestruturas. No ano de 2003 realiza a cimeira internacional de doadores, com o objectivo de captar recursos para financiar o processo de reconstrução Nacional, a maioria dos países da Europa e América que participaram neste evento não responderam as expectativas e os demais recusaram -se a participar.
Destarte, o governo Angolano busca parceiros dispostos a financiar o projecto de reconstrução nacional, a China como um parceiro com relações bilaterais que datam desde os anos 80, torna –se o principal financiador de grande parte das infraestruturas sociais e económicas construídas em Angola no período pós-conflito, tomando tais financiamentos actualmente, proporções incontornáveis.
As relações sino – angolanas ganham um novo impulso através dos acordos firmados entre o Governo Angolano e Chinês, que tiveram o seu início com visitas do Vice – Ministro Chinês da Economia, Comercio e Cooperação Yang Wesheng a Angola no ano de 1997 e posteriormente a visita do Chefe de Estado Angolano José Eduardo dos Santos a China um ano depois.
Tais acordos firmados deram azo as linhas de financiamento concedidas pelo governo chinês através do Eximbank da China tendo como garantias o petróleo angolano.
Tal conforme a informação do Ministério das Finanças (Minfin) no site[1], “O Ministério das Finanças assinou com o Eximbank da China três Acordos de Crédito nos dias 2 de Março de 2004, 19 de Julho de 2007 e 28 de Setembro de 2007, nos valores de 2 biliões de USD, 500 Milhões e 2 biliões respectivamente”. Podemos depreender as primeiras tranches cedidas pelo Governo chinês ascendem para 4,5 mil milhões de dólares, valores que actualmente encontram –se acima desta cifra uma vez que a informação relativa a acordos posteriores ou financiamentos cedidos pela china não se encontram disponibilizados no referido site. Actualmente de acordo The China Monitor (2010), estima –se que os financiamentos da China a Angola estejam acima dos 15,5 mil milhões de dólares.
De acordo Corkin[2], as contrapartidas de amortização da dívida foram definidas com base em uma quantidade fixa de barris. “Em Angola, esse volume foi definido em 10.000 barris por dia durante os dois primeiros anos e a 15.000 barris por dia nos anos subsequentes até a amortização total”.
O referido acordo de financiamento teve limitações impostas pelo governo chinês nomeadamente:

  1. Somente as empresas chinesas poderiam executar as obras ou infraestruturas;
  2. As matérias-primas necessárias para a execução das obras deveriam ser oriundas da china (materiais, equipamentos, tecnologias ou serviços);
  3. Uma boa parte dos recursos humanos 50%, ou seja, mão-de-obra devem ser chineses;

A china vê assim a oportunidade para escoar grande parte da sua matéria-prima, bens ou serviços que além da contrapartida do petróleo, constituem aspectos positivos que favorecem a balança comercial chinesa, estimula o consumo interno e impulsiona o seu crescimento.
Angola torna –se  assim o maior parceiro chinês na África Subsaariana com relações comerciais acima dos 25 mil milhões de dólares e o quinto maior destino das Exportações Chinesas.
A China é o segundo maior mercado das Importações Angolanas, segundo informações do Instituto Nacional de Estatística de Angola[3] (INE) durante o ano de 2014, cerca de 13,25% dos produtos consumidos em Angola tiveram a sua proveniência da China, e estima –se que este ano a China venha a superar Portugal, sendo que grande parte dos produtos importados, referem –se “Máquinas, Equipamentos e Aparelhos” com 23,39% “Veículos e Outros Meios de Transportes” com 12,86%; “Metais Comuns” com 11,37% “Produtos Agrícolas” com 9,20%.
Quando o assunto relaciona –se a Exportação a China liderou, durante o referido ano, a China consumiu cerca de 46,98%,  das Exportações Angolanas sendo que, grande parte dela foram fundamentalmente os combustíveis.
Fruto da Crise que afectou o preço do barril de petróleo no mercado Internacional a principal fonte de receitas fiscais do Governo Angolano, a economia Angola vê -se condicionada a dar continuidade dos programas que fazem parte do Plano Nacional de Desenvolvimento de Angola 2013 – 2017 (PND), situação que motivou o Estado a efectuar uma revisão no Orçamento Geral do Estado 2015, reduzindo as previsões de receitas, tendo como preço o barril do petróleo a 40 usd contra os anteriores 80 usd, uma redução de 50%.
Ante a este cenário o Presidente Angolano da inicio a uma jornada de visita de a China com o intuito de solicitar uma nova tranche de financiamento para a economia Angolana.
Cogita -se que os valores estejam a rondar entre os 20 a 25 mil milhões de dólares, no entanto, não se sabe de que forma serão disponibilizados os novos financiamentos e as modalidades de pagamentos, esperamos que tal informação seja posteriormente divulgada para que se possa encontrar o melhor caminho que garanta a sustentabilidade económica e financeira do Pais.
A china da seguimento do seu intento estratégico em diversificar as áreas de investimentos em Angola, da energia para a agricultura, pescas, tecnologia e comércio e agora finanças.

Auguramos que a nova tranche de financiamento sirva para fomentar o processo de diversificação da economia e ajude a reduzir a vulnerabilidade da economia angolana face aos choques externos, e que o referido financiamento, seja mutuamente vantajosos para as referidas economias.

Sectores como agricultura e energia, tornam – se fulcrais para que se possa substituir gradativamente as importações através do fomento da produção nacional.










[2] Lucy Corkin. O Eximbank da China em Angola, 2012. Informação disponível em: http://www.ictsd.org/bridges-news/pontes/news/o-eximbank-da-china-em-angola
[3] http://ine.gov.ao/xportal/xmain?xpid=ine

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A luta entre titãs (EUA vs Rússia) e o seu impacto na economia angolana

Janísio C. Salomão[1]
kams_9@hotmail.com

O conflito armado registado durante a guerra fria envolveu as grandes potências mundiais como: Estados Unidos da América (EUA), Rússia, Alemanha, Japão e demais países ficou registado nos anais da história até os diais de hoje.

Hodiernamente o conflito vivido entre as duas grandes potências não é mais um “conflito armando” (de momento), mais sim um conflito diplomático e económico, as potências tudo fazem para salvaguardar os seus interesses e dos seus aliados, chegando a não respeitar as grandes organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Como é consabido, a economia mundial esta fortemente dependente dos países que compõem o G8, queremos nos referir dos países mais industrializados como (EUA, Alemanha, Itália, Japão, Canada, França, Reino Unido e Rússia), com forte capacidade de influenciar os principais decisores.

O Mundo recorda até hoje os conflitos que envolveram os EUA, sobretudo o Iraque e África do Norte com destaque para Líbia, cujo os principais pretextos utilizados a produção de armas de destruição em massa, não foram provados até hoje no caso da Líbia, na realidade os principais intentos por detrás de isto tudo foram económicos, “dominar os principais países produtores de Petróleo”. Os motivos políticos sempre serviram de pretexto para se alcançar os económicos, desrespeitando a soberania dos países, e a ingerência em assuntos internos.

Do mesmo modo a Rússia em função dos interesses económicos invade a Ucrânia sobre um pretexto falso de que os seus concidadãos queriam uma desanexação da Crimeia sobre a Ucrânia, quando sabemos que grande parte do gás que fornecido a Europa passa pela Crimeia. Na verdade o que a Rússia queria era ter o controle deste pequeno espaço geográfico estratégico e tornar –se um dos principais decisores e influenciadores sobretudo nas políticas relacionadas com a comercialização das principais fontes de energia (gás e petróleo).

As relações entre EUA e Rússia nunca foram das melhores, o mundo não podia continuar impávido e sereno ante a intervenção militar que a Ucrânia estava a ser alvo, destarte para mostrar o seu poder como principal potência mundial o EUA inicia fortes sanções sobretudo económicas nas principais empresas russas, alargando posteriormente para políticas.

Sobre forte influência dos EUA as restantes potências mundiais como Reino Unido e Alemanhã e demais países da europa aprovam sanções económicas a Rússia.

O mundo ainda recorda os pronunciamentos públicos do Presidente da Rússia sobre sanções impostas pelo ocidente, Putin realça que “as sanções impostas a Rússia terão um efeito Boomerang”, ou seja, tudo o que lançares na natureza volta sempre para ti multiplicado, o nome teve origem numa peça de jogo feita de madeira cujo o nome é “Boomerang”. Foi uma resposta de provocação ao Presidente Obama em face as sanções impostas.

Como as principais Organizações Internacionais e as organizações de Bretton Woods encontram –se  sediadas nos EUA querendo ou não, existe uma certa influência nas principais políticas  e decisões internacionais.

Queremos com isto dizer que, as sanções foram redobradas, é assim que um novo pacote de sanções é aprovado pela ONU, os reflexos começaram a ser sentidos pela Rússia, grande parte das empresas multinacionais anunciaram prejuízos de bilhões de dólares como consequências das sanções.

Rússia anuncia que não tem medo das sanções e a sua economia dar a volta por cima.

Haveria então a necessidade actuar de diversas formas  de modo a abrandar a intervenção russa na Ucrânia e mudar a opinião de Putin.

A Rússia é um produtor e exportador de petróleo, possui uma das maiores reserva de gás natural do mundo. O petróleo o gás representam cerca de 80% da economia russa, grande parte do crescimento registado pela económica russa nos últimos anos foi sustentado pela alta dos preços do barril de petróleo.

O EUA um dos principais produtores de petróleo no mundo e detentor também de grandes reservas de petróleo e gás, e consumidor mundial, não era um dos grandes exportadores de petróleo.

Uma outra forma de afectar a economia Russa um dos maiores produtores de petróleo, era aumentar a oferta de petróleo no mercado internacional criando desta forma um desequilíbrio nas quotas determinadas pelo regulador que é a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Assim que este ano (2014) o EUA aumentam a produção em 50% e  passa a consumir e a exportar grande parte do petróleo xisto[2] como consequência os países que exportavam para o EUA foram obrigados a reduzir as suas produções diárias de petróleo ou a procurar outros mercados.

O mercado regista um excessiva oferta que acabaram por se repercutir nos preços, alcançando níveis baixos ou seja uma desvalorização em mais de 35% desde o ano de 2010, altura em que os preços rondavam aos 100 usd o barril. As previsões mais pessimistas apontam para preços a rondar abaixo dos 60 usd por barril.

A última reunião da OPEP realizada no pretérito mês de Novembro não surtiu o efeito desejado os grande produtores como: Arabia Saudita e EUA, decidiram  manter as suas quotas de produção.

Segundo Cristine Lagarde afirmou que “queda nos preços do petróleo no mercado internacional deve contribuir, de modo geral, para impulsionar a economia global, em especial para os Estados Unidos, que lutam para evitar uma desaceleração da actividade económica”.

Nosso entender não podemos esperar uma auto-regulação do mercado, por ser um mercado volátil e porque as sucessivas crises neste mercado, demostraram que o paradigma da mão invisível de Adam Smith nem sempre se aplica em todas as situações, sendo por isso necessário a intervenção dos principais órgão reguladores.

A economia russa está perante uma crise eminente em função da redução do preço do barril de petróleo e estima –se que em 2015 venha conhecer uma recessão com taxas de crescimento a rondar abaixo do previsto 0,8%, tal conforme ministro do desenvolvimento económico russo, Aleksêi Uliukáiev, que publicou o balanço económico do governo, ao revisar sua projecção para 2015 mostrando uma contração de 0,8%, comparada a uma projecção anterior, de crescimento de 1,2%”, segundo relatou o Jornal New York Times Internacional[3].

E a economia Angolana como fica?

O EUA é um dos principais mercados das exportações do petróleo produzido em Angola, depois da China. Com aumento da produção por parte dos EUA, Angola será forçada a reduzir a sua produção de petróleo estimada em 1,6 milhões de barris de petróleo dia, com a baixa dos preços a balança comercial Angolana será fortemente afectada, visto que as necessidades mantêm –se praticamente constantes, o que obrigará o país a continuar a importar grande parte dos bens e serviços, originando um deficit.

O orçamento para o exercício económico de 2015 foi previsto a um preço de barril em 81 usd e uma produção de petróleo estimada em , caso a situação perdure até próximo ano, isto também dependente das relações entre EUA e Rússia e a intervenção na Ucrânia, o deficit Angola pode aumentar de 7,6 para 8 ou mais, dependendo também da redução abrupta do preço do barril de petróleo que poderá afectar a taxa de crescimento do PIB Global previsto para 9,7%, caso o EUA assuma o controlo como maior produtor de petróleo no mundo e não reduza substancialmente o consumo de petróleo mundial a situação pode tornar –se mais agudizada.

Conforme o velho adágio popular “quando dois elefantes lutam quem sofre é o capim”, resta a economia Angola prosseguir urgentemente com a sua política de diversificação da economia, para que o petróleo não continue a exercer um papel fulcral na economia Angolana, é imperioso o surgimento de sectores que possam certamente contribuir para alargar a base tributária do  país.





[1] Mestre em Administração de Empresas; Consultor Empresarial e Técnico Oficial de Contas.
[2] uma tecnologia que permite a retira de gás e petróleo das rochas de xisto.

domingo, 28 de setembro de 2014

VANTAGENS E DESVANTAGENS DA SUBIDA DO COMBUSTÍVEL EM ANGOLA

28/09/14
Jonísio C. Salomão[1]


A partir do dia 27/09/14 entrou em vigor a nova actualização dos preços dos combustíveis comercializados em Angola, segundo a informação recentemente divulgada pela concessionária Angolana “Sonangol”, sob orientação do Ministério das Finanças de Angola (MINFIN). Esta medida visa gradativamente reduzir os valores das subvenções que o Estado Angolano vinha efectuando aos preços dos combustíveis, ou seja uma forma de cobrir a diferença entre o preço real de venda do combustível e o fixado pelo Executivo Angolano tendo em atenção o nível de vida e o rendimento per capita da população.

A subvenção do Estado Angolano a este sector, chegava a custar quase 4% do PIB.

Ao nosso ver, estamos um pouco receosos se a medida deveria ser já implementada, e visto que o prazo de sensibilização sobre alteração dos preços quase não existiu. Uma vez que recentemente entrou em vigor a nova pauta aduaneira e o mercado ainda vai reagindo as novas taxas alfandegárias, de forma a encontrar o ponto de equilíbrio na oferta e procura de bens e serviços, visto que grande parte das mercadorias consumidas em Angola vêm do exterior.

Os preços dos combustíveis sofreram um incremento médio de 25%, concretamente  a gasolina de 60 para 75 Akz , gasóleo de 40 para 50 Akz, o petróleo iluminante de 20 para 35 Akz, e o gás de cozinha 45Akz/kg, fazendo com que as botijas de 6, 12 e 51 kg, custem 270, 540 e 2.295,00 Akz respectivamente, segundo as informações do MINFIN[2].

Tais medidas de certeza terão de certeza algum impacto na economia. Em função deste novo cenário, probabilisticamente apresentamos algumas vantagens e desvantagens, nomeadamente:


VANTAGENS

 - O Executivo Angola possuirá maior disponibilidade financeira para fazer face aos programas sociais e investimentos públicos;

  - Possuirá maior disponibilidade orçamental para fazer face aos investimentos públicos e programas sociais como: construção de escolas, hospitais e melhoria dos serviços prestados a população;

 - Empresas Públicas serão mais competitivas e autónomas na geração de receitas;

  - O processo de diversificação da Economia conhecerá alguma evolução através dos fundos libertos;

 - Redução do contrabando e a fuga de combustível para mercados fronteiriços vizinhos ou limítrofes com Angola;

DESVANTAGENS

 - Possíveis tendências Inflacionárias;

 - Subida dos preços de alguns bens e serviços, visto que grande parte dos centros comerciais e empresas utilizam a energia alternativa “geradores” devido ao deficit de oferta de energia;

 - Aumento dos preços dos transportes de serviços privados “táxis” e consequentemente pouca adesão a estes serviços o que afectaria grande parte dos estudantes e funcionários públicos;

 - Encarecimento do custo de vida da população com parcos recursos ou rendimento per capita baixo;


Uma outra desvantagem que pode ser apontada é o factor psicológico que pode ser designado por “efeito manada”, conforme apontou da Silva[3].

Como vivemos num mercado integrado, o fornecedor ou vendedor apercebendo –se que os preços de alguns bens e serviços estão aumentando no mercado, pode por influência directa ou indirecta decidir incrementar os preços dos bens ou serviços comercializados.

E, como grande parte dos estabelecimentos e empresas não possuem cálculo de preços para poder estabelecer ou definir os preços, este erro ou má gestão tende facilmente a ocorrer, os pequenos, médios estabelecimentos ou empresas acabam por estimar os custos, “como tudo subiu de preço a lógica é seguir a manada e subir o preço” (op. cit.).

Concludentemente, podemos afirmar que os cenários apresentados podem ocorrer ou não na económica dependendo do comportamento de outras variáveis, visto que as situações não podem ser analisadas isoladamente.

No entanto, que a redução da subvenção do Estado na economia tenha que ocorrer, isto é já um facto ponto assente, importa realçar que deve haver um monitoramento e ajuste continuo dos órgãos de tutela como o Banco Nacional de Angola (BNA) para que as alterações macroeconómicas que encontram –se a serem efectuadas na economia Angolana não tragam um efeito boomerang, acabando por impactar algumas variáveis de realce como é o caso da inflação, que apresenta actualmenta uma taxa moderada.







[1] Mestre em Administração de Empresas; Consultor Empresarial e Técnico Oficial de Contas.
[2] MINFIN, Novos preços de produtos derivados de petróleo, 2014.
[3] DA SILVA, Jônatas Rodrigues. O impacto na economia causado pelo aumento da gasolina, 2013.